Se você acha que trabalha mais horas do que gostaria, este texto é para você.

Produzir mais e melhor é a lógica em boa parte do mundo do trabalho. Dedicamos muitos recursos à produtividade e normalizamos situações em que os limites são ultrapassados, em especial o limite de tempo disponível para o trabalho. O mercado aplaude quem faz mais e pune quem não se adapta a essas regras. Já ouvi de um gestor que ele não admitia, em sua equipe, a prática de “derrubar a caneta” no fim do expediente. Eu não conhecia a expressão, mas entendi que ele não apreciava que seus subordinados respeitassem o horário de trabalho contratado.

Mas o que acontece quando trabalhar mais do que se gostaria deixa de ser uma situação pontual e se prolonga por meses ou anos?

Um estudo publicado na revista Social Science & Medicine, que acompanhou mais de 43 mil pessoas na Alemanha entre 1984 e 2019, investigou a relação entre trabalhar mais horas do que se deseja e diferentes dimensões da saúde e do bem-estar. Os pesquisadores consideraram overemployed quem trabalhava mais de duas horas semanais além da jornada desejada. Também avaliaram a satisfação com a vida, o trabalho, o lazer e a saúde.

Os resultados mostraram uma associação entre o excesso de horas em relação ao desejado e piores indicadores de saúde mental. Não foram encontradas evidências de que as pessoas se acostumem com essa condição ao longo do tempo. A satisfação com o trabalho, o lazer e a saúde também se mostrou comprometida.

O estudo sugere que a distância entre a jornada que temos e aquela que gostaríamos de ter pode repercutir para além do trabalho, alcançando outras dimensões da vida. Ainda que as pessoas não se acostumem com isso ao longo dos anos, essa infelicidade tende a ser entendida como o “normal”. Vale a pena pensar no quanto pequenas concessões repercutem na sua vida.

Artigo completo: Krekel C, Kremser T, Melios G. Do people get used to working long hours? Soc Sci Med. 2026 Sep;404:119482. doi: 10.1016/j.socscimed.2026.119482.