Quando se fala em ações de saúde nas empresas, sempre aparece alguém com uma ideia mirabolante: um atendimento com nome de uma especialidade que não existe; ou uma sala especialmente decorada para uma prática da moda; ou ainda, um dia dedicado para um exame de laboratório aleatório, para colocar todo mundo em fila para a foto que vai ilustrar a rede social corporativa. “Porque as outras empresas estão fazendo, a gente precisa fazer também!”

Muitas dessas ideias não vão para frente (ufa!), mas é comum que acabem virando uma campanha pontual, que vai se encaixar em um “mês-de-uma-cor-qualquer”. E fica por isso mesmo...

Em saúde, a tomada de decisão deve ser baseada em evidências.

Fazer o simples bem-feito, com bom planejamento e com execução eficiente, é poderoso: consistência ganha de intensidade. Sempre.

O que é o simples em saúde nas empresas? Primeiro, conhecer o perfil de saúde dos usuários, no caso, os empregados. Depois, oferecer acesso a atendimento baseado na atenção primária, exames periódicos decentes, recursos complementares de laboratório, especialistas quando aplicável e... vacinas!

As vacinas são reconhecidamente responsáveis por um dos maiores impactos de qualquer intervenção de saúde pública na história. Nos últimos 50 anos, a vacinação evitou 154 milhões de mortes em todo o mundo e foi responsável por uma queda de 40% na mortalidade infantil global.

Mas a cobertura vacinal em todo o mundo vem caindo, e não é diferente no Brasil. Um fenômeno chamado hesitação vacinal.

A hesitação vacinal é o atraso ou recusa em aceitar vacinas recomendadas, mesmo quando os serviços de vacinação estão disponíveis. É um fenômeno complexo, que varia ao longo do tempo, do contexto, do território e do tipo de imunizante. Os fatores que influenciam a hesitação vacinal são conhecidos como “5 Cs”: Complacência (não perceber o risco das doenças imunopreveníveis), Conveniência (qualidade do acesso aos serviços de saúde e às vacinas), Confiança (na segurança e na eficácia das vacinas, e nas autoridades de saúde), Contexto (conjunto de crenças e diferenças socioeconômicas e culturais) e Comunicação (conhecimentos, atitudes e práticas baseadas em fatos verídicos ou não).

Os programas de saúde das empresas podem contribuir para incentivar a vacinação e romper as barreiras da hesitação vacinal. Verificar a condição vacinal de cada empregado e registrar no prontuário médico por ocasião do exame periódico; oferecer vacinas para grupos específicos quando houver evidência de benefício individual e coletivo; manter relação próxima com provedores de vacinas (clínicas privadas e serviços públicos); educar os trabalhadores sobre as vantagens da vacinação; e ampliar essas ações para outros membros da família, crianças e adultos – são exemplos de práticas possíveis para o aumento da cobertura vacinal.

Em meio ao barulho do mundo da saúde corporativa, nada é mais inovador do que fazer o básico bem-feito.

Referências:

Ghebrehewet S. Declining vaccination uptake rates need active advocacy by the whole healthcare workforce. J Public Health (Oxf). 2025 Aug 21:fdaf101. doi: 10.1093/pubmed/fdaf101. Disponível aqui.

Shattock AJ et al. Contribution of vaccination to improved survival and health: modelling 50 years of the Expanded Programme on Immunization. Lancet. 2024 May 25;403(10441):2307-2316. doi: 10.1016/S0140-6736(24)00850-X. Disponível aqui.

Hesitação vacinal. https://www.gov.br/saude/pt-br/vacinacao/esavi/hesitacao-vacinal