Um esquema prático para a saúde mental nas empresas
A busca por soluções para o tema da saúde mental nas empresas é quase o “Santo Graal” do mundo corporativo atualmente. Múltiplos fatores geradores de sofrimento dentro e fora do trabalho, a história de vida e o modo como cada indivíduo reage a esses fatores, bem como os aspectos relacionados à organização do trabalho e à qualidade da rede de apoio, são alguns dos elementos que aumentam a complexidade da abordagem e do manejo da saúde mental nas organizações.
Os gestores de saúde e bem-estar nas empresas buscam as melhores evidências para basear suas práticas e decisões, mas nem sempre as informações disponíveis são claras, objetivas e suficientes.
Um grupo de pesquisadores buscou dados da literatura para desenvolver um modelo prático baseado em evidências com o objetivo de ajudar as empresas a avaliar e aprimorar suas ações de saúde mental. Além da revisão extensa da literatura científica, foram consultadas diretrizes de organismos internacionais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Organização Internacional de Normatização (ISO) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT). A estrutura proposta se baseou em três pilares, que os autores chamaram de “3Ps” (Proteção, Promoção e Provisão) e em 10 categorias de práticas organizacionais voltadas à saúde mental no trabalho.
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Os “3Ps”
Os 3Ps são três níveis de intervenção organizacional que compõem um eixo central para pensar a saúde mental no trabalho de forma abrangente, sistêmica e estratégica: Proteção, Promoção e Provisão.
Proteção: ações voltadas para prevenir danos à saúde mental dos empregados, eliminando ou controlando riscos psicossociais no ambiente de trabalho, como carga de trabalho excessiva, falta de autonomia e insegurança no emprego. O objetivo é evitar que o trabalho seja fonte de adoecimento. Práticas de proteção incluem a avaliação dos riscos psicossociais, políticas contra assédio e discriminação, redesenho de tarefas e treinamento para reduzir estigmas e preconceitos.
Promoção: ações que fortalecem o bem-estar psicológico e emocional, indo além da prevenção do sofrimento. O foco é construir ambientes saudáveis, positivos e engajadores. As práticas de promoção incluem: desenvolvimento de lideranças empáticas, programas de bem-estar baseados nas características do grupo de empregados; cultura de reconhecimento e pertencimento; e oportunidades de desenvolvimento pessoal e profissional.
Provisão: trata-se da oferta de recursos e serviços de apoio aos trabalhadores que já enfrentam dificuldades emocionais ou transtornos mentais. O objetivo é garantir o suporte efetivo a quem precisa, reduzindo a possibilidade de agravamento do sofrimento e favorecendo a recuperação. Algumas práticas de provisão incluem: acesso facilitado a tratamento psicológico e psiquiátrico, programas de assistência ao empregado (EAP), apoio no retorno ao trabalho após afastamento por saúde mental, treinamento de líderes para identificar sinais de sofrimento e encaminhar para os recursos de auxílio.
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As 10 práticas organizacionais para a saúde mental no trabalho
Estratégia de Saúde Mental: refere-se ao planejamento estratégico formal da organização para lidar com a saúde mental. Exemplos: definição de metas e responsabilidades; avaliação de riscos psicossociais; alocação de recursos; monitoramento e melhoria contínua.
Liderança: comprometimento dos tomadores de decisões e responsáveis pela governança. Envolve: participação ativa dos líderes em iniciativas de saúde mental; comunicação clara sobre o tema; inclusão de metas de saúde mental nos objetivos de desempenho da liderança.
Cultura Organizacional: foca em como a cultura organizacional influencia a saúde mental. Normas, valores e comportamentos coletivos; como decisões organizacionais afetam o bem-estar psicológico; inclusão da saúde mental em políticas internas; ações de diversidade, equidade e inclusão.
Envolvimento e Engajamento: avalia o quanto os trabalhadores são incluídos no planejamento e na implementação das ações de saúde mental. Boas práticas incluem: consultas regulares aos empregados; formação de grupos de trabalho intersetoriais; redes de “embaixadores” da saúde mental em diferentes áreas.
Desenho do Trabalho e do Ambiente Físico: a maneira como o trabalho é estruturado e as condições do ambiente físico. Carga de trabalho; autonomia; previsibilidade de horários; relações interpessoais; apoio social; condições físicas, como ruído, iluminação, qualidade do ar.
Comunicação: envolve como a organização comunica questões de saúde mental aos seus diferentes públicos. Inclui: planos de comunicação alinhados à estratégia; campanhas educativas; canais acessíveis variados (reuniões, e-mails, cartazes etc.).
Capacitação Específica em Saúde Mental: avalia os programas de capacitação oferecidos para aumentar o letramento em saúde mental. Pode incluir: treinamento de lideranças para identificar sinais de sofrimento; cursos sobre autocuidado e gestão do estresse; educação continuada com base em evidências.
Recursos e Benefícios em Saúde Mental: inclui o que a organização oferece para ajudar os trabalhadores a acessar o tratamento ou apoio. Plano de saúde com cobertura ampla em saúde mental; programas de assistência ao empregado (EAP); acesso a terapias; apoio para os familiares; apoio no retorno ao trabalho após afastamento.
Políticas Relacionadas à Relação de Emprego: são políticas institucionais que não são diretamente de saúde mental, mas impactam o bem-estar. Exemplos: flexibilidade de horários e locais de trabalho; reconhecimento e recompensas; oportunidades de desenvolvimento e crescimento; inclusão de saúde mental em iniciativas de diversidade e gestão de mudanças.
Mensuração e Monitoramento: avalia como a organização coleta e usa dados sobre saúde mental para tomar decisões. Inclui: indicadores de saúde; avaliações de risco e clima organizacional; relatórios periódicos aos trabalhadores e à liderança; uso de dados para melhorar continuamente as ações.
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Artigo completo: Ballard DW, Lodge GC, Pike KM. Mental health at work: a practical framework for employers. Front Public Health. 2025 Apr 25;13:1552981. doi: 10.3389/fpubh.2025.1552981.
