Grandes empresas já perceberam o potencial dos serviços médicos próprios na gestão da saúde da população trabalhadora. Falo dos ambulatórios instalados nas corporações, que outrora eram utilizados apenas para a execução de exames obrigatórios previstos pela legislação, e que atualmente vêm se transformando em recursos centrados na atenção primária em saúde.

Equipes de saúde treinadas no acolhimento e identificação de fatores de risco à saúde dos empregados, para além do mínimo exigido por normativas, contribuem para a promoção da saúde e prevenção de doenças. Isso repercute não só no bem-estar e na preservação da saúde dos trabalhadores, mas também nos custos com a saúde suplementar e com o sistema público. Todo mundo ganha.

Um artigo publicado na revista The New England Journal of Medicine pode ser uma inspiração para clínicos e gestores dos serviços de saúde nas empresas, pois aborda um aspecto da atenção primária frequente nos ambulatórios: o uso de álcool.

Não existe dose segura para o consumo de álcool, e essa orientação precisa fazer parte da rotina das equipes de saúde, assim como ocorre em relação ao tabaco. Uma estratégia possível é a aplicação de escalas que identifiquem problemas relacionados ao consumo de álcool, como o CAGE e o AUDIT-C. Escalas não fazem diagnóstico individual, mas são ferramentas de triagem que podem oferecer oportunidade para a abordagem do assunto. A U.S. Preventive Services Task Force (USPSTF) recomenda a aplicação periódica dessa triagem para todos os adultos com 18 anos de idade ou mais, o que pode ser o ponto inicial para o aconselhamento e tratamento especializado.

Segundo o artigo, apenas 17,4% dos adultos que usam bebida alcoólica discutem esse assunto com seus médicos, mas as anotações de prontuários mostram que mais de 75% das histórias clínicas registram um padrão de uso. Há uma grande oportunidade para que esse tema seja abordado nos atendimentos médicos nas empresas.

Artigo completo: Krist AH, Bradley KA. Addressing Alcohol Use. N Engl J Med. 2025 May 1;392(17):1721-1731. doi: 10.1056/NEJMcp2402121.