Vejo no consultório uma grande preocupação dos pacientes em saber quais são seus níveis de vitamina D. Alguns chegam com um histórico de múltiplas dosagens e do uso de suplementos vitamínicos; outros querem realizar a dosagem, pois dizem que algum parente ou conhecido ficou surpreso ao descobrir níveis baixos desse pró-hormônio.

A vitamina D participa dos processos de metabolismo do cálcio e de outras funções celulares. Em crianças, a deficiência está relacionada ao raquitismo e outras alterações ósseas; em adultos, a necessidade de monitoramento e suplementação deve ser analisada com critério. Nosso organismo produz cerca de 90% da vitamina D disponível, que é convertida por um espetacular mecanismo que ocorre na pele exposta à luz do sol. Os outros 10% vêm da alimentação e/ou de suplementos; estes devem ser usados com cautela sob orientação de um profissional qualificado.

Um grupo de pesquisadores dos Estados Unidos quis responder uma pergunta curiosa: será que o trabalho pode ser um fator associado à deficiência de vitamina D? Eles publicaram, na revista Occupational & Environmental Medicine, um recorte com dados de uma grande pesquisa sobre saúde e nutrição que existe há várias décadas naquele país: a iniciativa National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES). Mais de 16 mil trabalhadores tiveram a vitamina D dosada no sangue e responderam a questionários sobre as características do seu trabalho. Após a análise estatística e o isolamento de outras características individuais, os resultados mostraram que os trabalhadores em turnos tinham maior probabilidade de apresentar deficiência grave de vitamina D em comparação com trabalhadores diurnos. Mulheres que trabalhavam mais de 40 horas semanais tinham maior probabilidade de apresentar deficiência moderada. Já os trabalhadores que exercem suas funções em ambiente externo foram menos propensos à deficiência de vitamina D do que os empregados administrativos.

Esses resultados reforçam o importante papel da exposição solar no metabolismo da vitamina D, e fatores inerentes ao trabalho podem estar relacionados. Os autores do trabalho sugerem que o rastreio e suplementação de vitamina D podem ajudar a reduzir essas disparidades entre os diferentes grupos ocupacionais. Embora eu não discorde dessa recomendação, parece sensato incentivar o método natural: expor a pele ao sol (braços e pernas pelo menos duas vezes por semana ou o corpo inteiro uma vez a cada dois ou três meses). Essa recomendação pode ser incorporada ao exame periódico, antes de ceder à tentação de solicitar exames em adultos assintomáticos.

Artigo completo: Velazquez-Kronen R, MacDonald LA, Millen AE. Sex and race disparities in the association between work characteristics and vitamin D deficiency: findings from the National Health and Nutrition Examination Survey, 2005-2010. Occup Environ Med. 2024 Aug 16;81(7):339-348. doi: 10.1136/oemed-2024-109473.