Muito se escreve sobre a importância dos líderes nos temas de saúde mental no trabalho, mas pouco se propõe em termos de ações práticas. Pesquisadores do Canadá e dos Estados Unidos publicaram um artigo com atitudes que podem ser colocadas em prática e que devem integrar a capacitação das lideranças.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a saúde mental como “um estado de bem-estar no qual o indivíduo é capaz de usar suas próprias habilidades, recuperar-se do estresse rotineiro, ser produtivo e contribuir com a sua comunidade”. Ampliando o conceito, a saúde mental não está associada apenas a uma sensação de bem-estar, felicidade ou positividade, mas também à capacidade de sentir-se útil e de formar conexões sociais. Por isso, a relação das pessoas com o seu trabalho e com os colegas são elementos definidores de saúde mental.

Mas a questão não é tão simples. A organização do trabalho interfere diretamente nas relações de trabalho, seja para o bem ou para o mal. Um ambiente de trabalho estimulante, em que as pessoas possam expressar suas habilidades e opiniões de forma segura, onde existe reconhecimento e apoio, sem dúvida, funciona como um fator protetor. Por outro lado, ambientes nos quais os fatores psicossociais provocam estresse, sobrecarga e empobrecimento das relações sociais são adoecedores. E é aqui que os líderes podem atuar diretamente com suas equipes nessas cinco frentes possíveis:

Oferecer apoio emocional. Gestores bem preparados sabem reconhecer e atender demandas emocionais, tanto profissionais quanto pessoais, de seus liderados, o que fortalece a percepção de cuidado, considerando os sentimentos dos trabalhadores. Perguntar sobre os planos do fim de semana e retomar o assunto após o descanso pode ser um exemplo desse envolvimento. Abordar insatisfações durante avaliações de desempenho, em um ambiente de segurança psicológica, permite que os funcionários expressem preocupações e assumam riscos de forma mais confortável.

Fornecer suporte na prática. Envolve ações que forneçam recursos e garantam que os trabalhadores conheçam as ferramentas disponíveis para a saúde mental, como o Programa de Assistência ao Empregado (EAP). Os líderes podem agir equilibrando demandas profissionais, como reduzir pressões no trabalho ou reorganizar tarefas, o que abrange também políticas de flexibilização de horários e auxílio no gerenciamento de cronogramas.

Ser modelo. Líderes devem demonstrar que priorizam sua saúde mental e bem-estar, servindo de modelo para seus liderados. Isso envolve comportamentos como manter horários razoáveis e tirar férias, mostrando caminhos para resultados positivos de saúde mental. Segundo a teoria da aprendizagem social de Bandura & Walters, as pessoas aprendem observando os outros: assim, líderes que compartilham suas experiências com saúde mental ou com o uso do EAP podem incentivar suas equipes a fazerem o mesmo, normalizando o autocuidado.

Reduzir estigmas. Julgamentos relacionados a questões de saúde mental são comuns: falta de força de vontade, desvio de caráter ou insinuações de ganhos secundários ganham o peso equivalente a acusações contra as pessoas que enfrentam sofrimento mental. Reduzir esse estigma é essencial para garantir igualdade de oportunidades, promover a busca por ajuda e normalizar o acesso aos recursos.

Reconhecer sinais de alerta e agir adequadamente. Capacitar os gestores a entender condições de saúde mental e identificar sinais de alerta é fundamental. Mudanças no comportamento, redução do desempenho nas entregas ou posturas esquivas devem ser valorizadas e servir como motivo para conversas francas, com oferta de suporte. Os serviços de saúde precisam estar disponíveis e dar apoio técnico e assistencial aos líderes e empregados.

Artigo completo: Hammer LB, Dimoff J, Mohr CD, Allen SJ. A Framework for Protecting and Promoting Employee Mental Health through Supervisor Supportive Behaviors. Occup Health Sci. 2024 Jun;8(2):243-268. doi: 10.1007/s41542-023-00171-x.