Quando o trabalho interfere na vida
Este é o título do editorial assinado por Reiner Rugulies no Scandinavian Journal of Work, Environment & Health, que não só sintetiza um artigo publicado naquela revista, mas apresenta vários pontos para nossa reflexão.
A interferência entre o trabalho e a vida pessoal foi compreendida de diferentes formas ao longo do tempo. No início da Revolução Industrial, uma frase atribuída a Robert Owen sintetizava a necessidade de um equilíbrio saudável entre trabalho e vida pessoal: “oito horas de trabalho, oito horas de recreação, oito horas de descanso”.
A ideia da relação entre o número de horas de trabalho e o equilíbrio com outros domínios da vida persistiu até o nosso século, mas novos aspectos precisam ser considerados. O desequilíbrio nas relações de trabalho observado entre homens e mulheres é um deles. Mulheres estão expostas a jornadas de trabalho mais longas, à dupla carga de trabalho com a atribuição de tarefas domésticas e cuidados com a família e piores níveis de equilíbrio vida-trabalho.
Outro ponto a ser considerado é o aspecto geracional. Segundo o autor, estudos demonstram que trabalhadores das gerações Y e Z são mais sensíveis aos efeitos negativos do trabalho na vida e são mais focados em se proteger desses efeitos em comparação com as gerações anteriores, ainda que existam críticas a essa conclusão.
O fato é que atualmente a distinção entre o trabalho e vida pessoal é cada vez menos clara e não é fácil responder se isso é bom ou ruim para a saúde dos trabalhadores. Entre alguns profissionais, especialmente os altamente qualificados, o trabalho é uma parte importante da vida e um contribuidor essencial para a identidade e a autoestima. A relação entre o trabalho e a vida é tão próxima que termos como “interferência” ou “equilíbrio” podem não ser adequados para descrever a interação complexa desses domínios.
Vamos nos aprofundar e discutir outros aspectos deste tema em artigos futuros neste espaço.
Referência: Rugulies R. When work interferes with life. Scand J Work Environ Health. 2024 Oct 1;50(7):485-488. doi: 10.5271/sjweh.4188.
