Aquele remédio famoso aumenta o risco de acidentes do trabalho?
A piada é velha: quando alguém está sob estresse no trabalho, com a família ou simplesmente deseja relaxar, logo vem o nome daquele remédio famoso – “preciso de um...”, “coloque na caixa d’água”, “fulano devia tomar também”, e por aí vai...
Os benzodiazepínicos (é, este é o nome complicado do grupo farmacológico que o remédio famoso pertence e, sim, farmacológico também é um nome complicado) são prescritos com frequência e têm indicações específicas. A regra geral é que sejam usados por curtos períodos e nas doses mais baixas possíveis para o melhor efeito terapêutico. Além disso, o profissional que prescreve deve acompanhar de perto o paciente, com visitas regulares às consultas para ajuste de dose, vigilância do padrão de uso e interrupção assistida sempre que possível.
Mas, infelizmente, o uso abusivo dos benzodiazepínicos ainda é um problema comum. Mesmo com as regras para a prescrição e dispensação desses remédios, muitas vezes eles são obtidos de forma clandestina, o que é um grave problema de saúde pública. O uso continuado dos “benzo” (apelido carinhoso no meio médico) pode causar dependência e a necessidade de doses cada vez maiores para que o indivíduo tenha o efeito que tinha antes. E altas doses podem causar até a morte.
Quando um trabalhador precisa usar esse grupo de remédios, a preocupação das equipes de saúde é sempre grande no sentido de evitar acidentes no trabalho. Como os “benzo” podem causar sonolência, redução da atenção e lentificação das respostas reflexas, é necessária atenção especial e até mesmo restringir as atividades de maior risco, como operação de máquinas, trabalho em altura ou condução de veículos.
Um estudo publicado no Plos One, utilizando dados de quase 2,5 milhões de trabalhadores franceses, buscou verificar os impactos do uso dos benzodiazepínicos no risco de acidentes de trabalho. Os resultados mostraram que o risco de acidentes segue uma curva em formato de “J”, isto é, em um curto período inicial (um mês) há uma queda na ocorrência de acidentes de trabalho; mas o risco de acidentes aumenta quando o tratamento excede a duração recomendada. Além disso, quando há a interrupção abrupta do uso do medicamento, os acidentes também aumentam significativamente.
Esses dados reforçam que as equipes de saúde e, em especial, os médicos que prescrevem benzodiazepínico ou que são responsáveis pelos programas de saúde nas empresas, precisam tomar ações firmes para evitar o uso abusivo desses remédios e manter a vigilância no ambiente de trabalho, sobretudo para as atividades de maior risco.
Artigo completo: Baudot FO. Impact of benzodiazepine use on the risk of occupational accidents. PLoS One. 2024 Apr 16;19(4):e0302205. doi: 10.1371/journal.pone.0302205.
