Como a flexibilidade no trabalho afeta a saúde mental?
A flexibilidade no trabalho é vista como um tesouro por muitos empregados. Poder escolher o horário e local para realizar as tarefas, ter autonomia para administrar assuntos pessoais e domésticos, decidir quando intensificar ou não o ritmo de trabalho são vantagens que fazem parte da lista de desejos das pessoas que trabalham.
O trabalho flexível não é uma realidade para a maioria. Atividades que exigem contato direto com clientes no horário comercial, ou interações frequentes e presenciais com grupos de trabalho, e tarefas de produção com uso de máquinas ou equipamentos ainda estão longe de grandes flexibilizações. Não é uma negociação fácil para muitas áreas do mundo do trabalho, não só em razão dos processos de decisão, mas também por motivos operacionais.
O trabalho flexível é muito desejado. Você mesmo deve estar pensando agora como o seu trabalho poderia ser um pouco mais flexível e, se você é um tomador de decisões, como poderia viabilizar e ampliar isso na sua empresa. Não há dúvida que a flexibilização é uma pauta que ultrapassou os limites da organização do trabalho e passou a ser um benefício corporativo e fator de atração e retenção de talentos. Quase como um selo de qualidade da organização.
Pesquisadores publicaram na Revista da Associação Médica Americana (JAMA) um estudo transversal com mais de 18 mil trabalhadores dos Estados Unidos para verificar como a flexibilidade no trabalho influencia a saúde mental. A flexibilidade foi avaliada através de três parâmetros: facilidade em mudar o horário para fazer coisas importantes para si e para a família; regularidade nas mudanças de horário; e programação das jornadas de trabalho com antecedência. Além dessas variáveis, também foi avaliada a sensação de segurança no trabalho em termos de probabilidade percebida de perder o emprego. Os desfechos avaliados foram a percepção de sofrimento psicológico e a frequência de sintomas de ansiedade.
Nesse tipo de estudo, a tentativa de quantificar os desfechos pode ser feita em termos de odds ratio (OR), que é entendida como uma razão de chances. Simplificando bastante o conceito: valores de OR maiores que 1 representariam prejuízos à saúde mental associados à flexibilização e segurança no trabalho; valores menores que 1 estariam associados a benefícios em saúde mental. Pois bem, os resultados mostraram que trabalhos mais flexíveis estavam associados a OR = 0,74 e OR = 0,87 para sofrimento mental e sintomas de ansiedade, respectivamente. E a sensação de segurança quanto a não ser dispensado do emprego mostrou OR = 0,73 para sintomas ansiosos.
Esses resultados confirmam que a flexibilidade no trabalho pode proporcionar benefícios à saúde mental dos empregados. Além da definição das políticas internas, é necessário treinar líderes e empregados para o melhor uso das possibilidades que o trabalho flexível oferece.
Artigo completo: Wang ML et al. Job Flexibility, Job Security, and Mental Health Among US Working Adults. JAMA Netw Open. 2024 Mar 4;7(3):e243439. doi: 10.1001/jamanetworkopen.2024.3439.
