O mundo do trabalho tem quase um idioma próprio. Bem, é um exagero comparar a um outro idioma, mas certamente é uma linguagem muito particular. Assim como a língua falada, com suas gírias e palavras da moda, o mundo corporativo também tem suas ondas de expressões que se destacam: desafios, oportunidades, alinhamento, colaboração, só para citar algumas (originais ou traduzidas) em português.

Quero falar sobre uma dessas expressões, que você já deve ter ouvido ou falado em alguma reunião em que o assunto envolvia relações interpessoais: empatia.

Poucos discordam de que a empatia é uma habilidade social muito importante dentro e fora do mundo do trabalho, e que ela é um ponto central da inteligência emocional. A definição mais comum para a empatia é a capacidade de se imaginar no lugar de outra pessoa, e envolve três dimensões: afetiva, cognitiva e comportamental.

A dimensão afetiva diz respeito aos sentimentos e emoções; é a capacidade de compartilhar um estado emocional congruente com o da outra pessoa. A dimensão cognitiva permite dar significado, interpretar e entender o estado mental e as atitudes do outro. E a dimensão comportamental está associada às ações e interações que empreendemos junto ao nosso interlocutor para, por exemplo, apoiar ou orientar.

Uma pergunta importante é: nós nascemos empáticos ou nos tornamos empáticos? Algumas pessoas têm características pessoais que favorecem o exercício da empatia, mas o comportamento empático é uma construção social e, portanto, pode ser desenvolvido e aprendido.

No ensino das profissões da saúde, uma das nossas preocupações é que os aprendizes desenvolvam e aprimorem a empatia no contato com seus pacientes, familiares, colegas e membros das equipes multiprofissionais. Autores do Reino Unido publicaram um artigo no Journal of Evaluation in Clinical Practice com um diagrama muito bem elaborado sobre como pensamos nos fatores humanos relacionados ao desenvolvimento da empatia nos sistemas de saúde. Penso que ele seja um guia interessante para as instituições que se organizam para estruturar a capacitação nesse tema entre seus empregados e, sobretudo, seus líderes.

Imagine um diagrama com círculos concêntricos em que a figura central é sobre questões individuais, como a auto empatia e a percepção de bem-estar no local de trabalho. Sim, para ser empático e necessário, antes de tudo, estar bem consigo mesmo e sentir-se pertencente a um ambiente seguro. Envolvendo essa figura estão outras que descrevem fatores organizacionais, como o incentivo à cultura de empatia, trabalho em equipe, liderança empática, valorização do trabalho e vários outros. Recomendo que você acesse o link abaixo e veja a figura e o texto em detalhes (enquanto escrevo esta página, o artigo original está disponível sem necessidade de assinatura da revista).

Volto à ideia inicial deste texto: mais do que uma palavra do vocabulário corporativo, o desenvolvimento da habilidade socioemocional de empatia precisa fazer parte da cultura e das ações das organizações.

Artigo completo: Howick J, de Zulueta P, Gray M. Beyond empathy training for practitioners: Cultivating empathic healthcare systems and leadership. J Eval Clin Pract. 2024 Mar 4. doi: 10.1111/jep.13970.