Imagine o mundo sem açúcar. Essa frase soa quase como a metáfora de um mundo triste, sem grandes prazeres. Mas os resultados de um estudo parecem mostrar o contrário disso: o consumo excessivo de açúcar parece estar associado à depressão.

Desde que foi desenvolvida na Ásia há cerca de 1500 anos, a técnica de solidificar o caldo extraído da cana-de-açúcar não deixou de ser usada pela humanidade, sendo seu produto amado por muitos. A questão é que o açúcar tem o sabor muito atrativo e concentra muitas calorias por volume. Nosso organismo se adaptou a condições de escassez por pressões da seleção natural, de modo que a disponibilidade de um alimento com essa característica, aliado ao nosso estilo de vida sedentário, é a combinação perfeita para diversas repercussões e adoecimento.

Mas, sejamos honestos: o prazer de degustar um doce bem-feito, bem apresentado, muitas vezes apreciado no contexto de celebrações ou até como um “presente” dado para si em segredo, é quase, com a devida licença para uma antítese, um pecado permitido. O ponto é que alimentos com alto teor de açúcar estão cada vez mais baratos, mais disponíveis, mais processados e mais convidativos para todos os públicos, adultos e crianças. E a forma de consumir favorece para grandes volumes de açúcar, como por exemplo, em bebidas adoçadas. Então, é fácil entender por que devemos direcionar esforços em educação e em políticas de saúde pública para reduzir essa exposição.

Pesquisadores publicaram no BMC Psychiatry um levantamento extraído de um grande banco de dados de saúde dos Estados Unidos, o National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES). Eles estudaram os dados de mais de 18 mil adultos em um período de sete anos, que incluíam variáveis como: nível socioeconômico, escolaridade, antecedentes de doenças crônicas metabólicas e cardiovasculares, hábitos alimentares, consumo de substâncias, atividade física, entre outras. Quando o consumo de açúcar foi avaliado separadamente, a conclusão foi que, para cada 100 gramas a mais de consumo de açúcar diário, a prevalência de depressão aumentava em 28%.

Esse estudo não conclui sobre uma relação de causa e efeito: não é possível afirmar que o consumo do açúcar seja uma causa da depressão. Mas ele é um marcador importante, que deve ser considerado no cenário do atendimento clínico de diversos profissionais (médicos, enfermeiros, nutricionistas, psicólogos) e como um item da agenda para ações de saúde coletiva. Individualmente, reduzir o consumo do açúcar pode não ser uma tarefa fácil, mas é necessária como medida preventiva para doenças crônicas e para proporcionar uma vida mais longeva e feliz.

Artigo completo: Zhang L et al. Association between dietary sugar intake and depression in US adults: a cross-sectional study using data from the National Health and Nutrition Examination Survey 2011-2018. BMC Psychiatry. 2024 Feb 8;24(1):110. doi: 10.1186/s12888-024-05531-7