Meditação é um recurso para prevenção e controle das doenças cardiovasculares?
Esse foi o ponto de partida para uma revisão da literatura médica publicada pela Biblioteca Cochrane. As doenças cardiovasculares são a principal causa de mortes no mundo, e um grande esforço tem sido dedicado para o controle dos fatores de risco. Obesidade, tabagismo, maus hábitos alimentares são alguns dos que podem ser modificados, e podemos adicionar a essa lista o controle do estresse.
O estresse provoca uma cadeia de reações que envolvem substâncias produzidas pelo próprio organismo, como o cortisol, adrenalina e noradrenalina. A exposição de forma repetida provoca diversos danos em longo prazo, o que inclui as doenças cardiovasculares. Por isso, a busca de recursos que possam diminuir os impactos do estresse é de interesse tanto para cada indivíduo, como estratégia de saúde pública.
A prática de meditação tem sido associada a benefícios para o bem-estar e saúde mental entre seus praticantes. Autoconhecimento, melhora da qualidade do sono, aumento da concentração e redução do estresse e da ansiedade estão na lista dos possíveis benefícios. Então, será que as técnicas de meditação contribuem para o controle ou prevenção das doenças cardiovasculares?
Os pesquisadores reuniram estudos que usaram técnicas do tipo mindfulness ou meditação transcendental, com o critério de terem sido usadas por pelo menos 12 semanas em adultos com alto risco cardiovascular ou doença já estabelecida. Na soma de participantes dos estudos que foram considerados nessa análise, quase 7.000 pessoas estavam nos critérios de elegibilidade, sendo os desfechos analisados qualquer evento cardiovascular, controle da pressão arterial, parâmetros de bem-estar, percepção do estresse e habilidades de enfrentamento. Os autores descreveram que os dados disponíveis não permitem concluir que haja benefício direto entre as práticas de meditação e o controle e prevenção da doença cardiovascular, porque os estudos disponíveis são pequenos e os resultados não são claros.
As limitações para esse tipo de estudo são compreensíveis. Mesmo com todo trabalho de análise estatística, com isolamento de variáveis e outros fatores que possam influenciar nas conclusões, é muito difícil fazer medidas de efeito quando se trata de meditação. As diferenças individuais, a relação que cada indivíduo tem com a prática, a subjetividade da experiência, frequência, intensidade e o contexto e entorno são fatores que os desenhos de estudo podem ser insuficientes para contemplar. Além disso, as doenças cardiovasculares geralmente demoram para se manifestar, então os estudos do tipo coorte parecem ser mais adequados para essa análise, mas envolvem maiores custos e tempo para a realização.
A conclusão é que os profissionais da saúde, atualmente, não têm subsídios para indicar e esperar benefícios clínicos diretos da meditação para os seus pacientes no que se refere às doenças cardiovasculares. A decisão em usar técnicas de meditação como um recurso para o bem-estar pode ser compartilhada, mas não deve substituir as recomendações de tratamento aplicáveis para cada paciente.
Artigo completo: Rees K, Takeda A, Court R, Kudrna L, Hartley L, Ernst E. Meditation for the primary and secondary prevention of cardiovascular disease. Cochrane Database Syst Rev. 2024 Feb 15;2(2):CD013358. doi: 10.1002/14651858.
