Retorno sobre investimento: um olhar sobre programas de prevenção de doenças crônicas em empresas
A prevenção de doenças é uma das frentes mais importantes para os que cuidam da saúde dos trabalhadores. Empresas mais maduras nas ações de saúde e segurança já perceberam, há algum tempo, a importância e relevância em oferecer ambientes de trabalho seguros e saudáveis.
Profissionais da saúde tendem a ter um olhar “qualitativo” para os cuidados de saúde. Gestores e tomadores de decisão tendem para um olhar mais “quantitativo” para os resultados das ações de bem-estar nos ambientes de trabalho. O famoso retorno sobre investimento (ROI, na sigla em inglês) é uma métrica que foi apropriada de outras áreas da administração e que pode mostrar um dos aspectos dos resultados de ações de saúde nas organizações.
A literatura especializada é rica em estudos sobre o ROI em programas de bem-estar. Os resultados são variados, o que é esperado considerando que as organizações têm populações com diferentes características epidemiológicas, além de outras variáveis, como tempo de implantação dos programas, adesão dos empregados, escolha dos parâmetros de desfechos e várias outras.
Uma revisão sistemática publicada no American Journal of Preventive Medicine reuniu 25 estudos para verificar o ROI de programas de bem-estar direcionados para a prevenção de doenças crônicas não-transmissíveis (DCNT). Os pesquisadores fizeram a busca de publicações que incluíssem os resultados de intervenções em pelo menos um de quatro fatores modificáveis relacionados ao risco de DCNT: atividade física, alimentação saudável, cessação do tabagismo e uso moderado de álcool (embora este último seja passível da discussão recente se existe ou não dose segura de álcool, mas este é um assunto para outro artigo neste espaço). Apenas dois textos preencheram o critério dos autores, do que eles consideraram alto rigor metodológico e menor risco de viés de seleção. Na síntese desses dois artigos, não foram encontradas evidências de ROI positivo a curto prazo.
Este resultado pode frustrar alguns, mas deve ser visto com cautela. O primeiro ponto é que estudos de ROI devem ser analisados para populações específicas: o que vale para sua empresa, pode não valer para outra. Segundo: situações especiais relacionadas, por exemplo, ao mercado de saúde local como custos assistenciais, nível de serviço e gestão da saúde populacional em seus diversos aspectos precisam ser considerados. Outro ponto, que para mim é essencial nessa análise: programas de saúde em geral não têm resultados de curto prazo, ainda mais quando falamos de doenças crônicas, que, como o nome indica, têm um tempo de evolução e instalação longo e são influenciadas por diversos outros fatores individuais e do ambiente.
Por isso, embora os resultados do estudo possam ser desanimadores em uma análise rápida, ele reforça o princípio básico de que os programas de saúde devem ser consistentes, bem planejados, bem executados e fazer parte da construção da cultura de saúde nas organizações. Soluções mágicas e atalhos não valem para muitas áreas da vida; para os programas de saúde sérios, também.
Artigo completo: Baid D, Hayles E, Finkelstein EA. Return on Investment of Workplace Wellness Programs for Chronic Disease Prevention: A Systematic Review. Am J Prev Med. 2021 Aug;61(2):256-266. doi: 10.1016/j.amepre.2021.02.002
