A pergunta do título é provocadora. Muitos responderiam a ela rapidamente: “É claro que sim!”. No entanto, para além da ‘resposta correta’, a realidade das pessoas neurodiversas no mercado de trabalho é bem diferente e foi tema de textos anteriores neste espaço.

Insisto na perspectiva de que a neurodiversidade (ND) – assim como outras formas de diversidade – deve ser vista como um motor para o enriquecimento das relações sociais e do ambiente de trabalho. Muitas organizações resistem em agir para incluir pessoas neurodiversas nas suas equipes, situação frequentemente tratada com um silêncio leniente no mundo do trabalho.

Para fazer um contraponto interessante à essa situação, quero resumir as ideias de uma publicação recente. Os autores fizeram uma análise de como a área de segurança nacional dos Estados Unidos trata a questão da ND entre os seus servidores.

Podemos imaginar que as organizações governamentais ligadas à segurança naquele país tenham altas exigências técnicas e estratégicas em suas atividades. Por isso, precisam de pessoas altamente qualificadas e dispostas a colocar seus talentos a serviço das necessidades complexas de proteção da ordem pública. Neste contexto, muitas tarefas podem exigir grande atenção a detalhes, precisão e pouca (ou nenhuma) margem para erros, abrindo grandes oportunidades para que os talentos das pessoas neurodiversas sejam valorizados.

Os autores defendem que a ND pode fortalecer as organizações, mesmo em áreas críticas como a de segurança nacional. Apontam que alguns servidores tentam esconder sua condição (mesmo quando já contratados), pois não querem ser rotulados como deficientes. Da mesma forma, os candidatos tentam omitir nos processos de recrutamento e seleção por conhecer as barreiras veladas que são colocadas no processo de contratação. A publicação conclui que é necessário tomar medidas para modificar as práticas de contratação a fim de atrair pessoas neurodiversas; ajudar a disseminar informações para um melhor entendimento da ND no contexto do trabalho; proporcionar ambientes e equipamentos adequados, como a possibilidade de ajuste de luminosidade e fones de ouvido com cancelamento de ruído, por exemplo. São ideias de boas práticas para nossa realidade.

Artigo completo: Weinbaum C, Khan O, Thomas TD, Stein BD. Neurodiversity and National Security: How to Tackle National Security Challenges with a Wider Range of Cognitive Talents. Rand Health Q. 2023 Sep 15;10(4):9. PMID: 37720075; PMCID: PMC10501819.

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