Obesidade e desemprego
Eu imagino quantas pessoas não irão adiante na leitura deste texto. Impera no nosso tempo a necessidade de ver, ler, ouvir e falar prioritariamente sobre o que é belo, bom e agradável. Levantar temas que se distanciam da imagem hegemônica do mundo editado (sucesso e felicidade) é um risco que vou me dispor a correr. O título traz duas palavras incômodas: obesidade, que representa não só uma questão de saúde, mas uma condição de interfere nas relações sociais; e desemprego, que, sejamos francos, não é um assunto bem-vindo para o almoço de domingo ou com a rede de contatos...
Obesidade é um problema de saúde pública e isso não é segredo para ninguém. No Brasil, cerca de 60% dos adultos estão acima do peso, metade deles classificados como obesos. Diversos fatores contribuem para a epidemia de obesidade: aumento do consumo de alimentos industrializados, sedentarismo, falta de acesso aos serviços de saúde, uso de medicamentos, transtornos psíquicos e fatores genéticos. Reduzir a questão da obesidade a “falta de força de vontade”, “falta de determinação” ou “falta de caráter” é somar mais preconceito e estigma a uma condição de saúde que merece um olhar mais compassivo.
O excesso de peso é um fator de risco para diversas complicações clínicas de médio e longo prazo, como diabetes, hipertensão, perturbações do sono e até alguns tipos de câncer. E podemos somar uma lista de prejuízos sociais, entre eles a dificuldade de conseguir emprego.
Pesquisadores publicaram na revista Economics and Human Biology um estudo que usou modelos matemáticos para estimar o impacto do sobrepeso e da obesidade na duração do desemprego entre jovens dos Estados Unidos. Foram usados dados do National Longitudinal Survey of Youth, uma grande coorte que inclui mais de 12 mil pessoas que são acompanhadas há várias décadas. Os resultados mostraram que pessoas acima do peso experimentam períodos de desemprego significativamente mais longos. Além disso, mulheres brancas e pretas com sobrepeso e obesidade ficam mais tempo desempregadas do que mulheres brancas com peso normal. Mulheres brancas ficaram 11% mais tempo desempregadas e mulheres pretas, 25%.
Os autores sugerem que várias razões estejam relacionadas a este fenômeno, entre elas a possibilidade de que os recrutadores acreditem que trabalhadores com sobrepeso sejam menos produtivos e provoquem mais gastos com saúde, fazendo com que sejam menos propensos a fazer uma oferta de emprego. Sejam propositais ou inconscientes, é necessário propor caminhos para que esses vieses sejam mitigados.
Artigo completo: Groves J, Wilcox V. The impact of overweight and obesity on unemployment duration among young American workers. Econ Hum Biol. 2023 Jul 27;51:101280. doi: 10.1016/j.ehb.2023.101280
